Editora de Literatura Infantil e Juvenil

A Importância das Histórias para o Desenvolvimento Emocional das Crianças

Vector por FreePick

Lembro-me de quando era pequena e curiosa pelo mundo, de ter uma professora diferente. Era professora de inglês. Eu deveria ter 13 anos quando conheci a língua; tinha bastante dificuldade nos verbos irregulares. Era uma altura diferente. O idioma não estava tão enraizado como nos dias de hoje. Tive o meu processo lento de aprendizagem, tal como uma lagartinha a preparar-se para ser uma borboleta colorida e esvoaçante.

Esta professora ensinava a contar histórias; era algo curioso. Em vez de nos colocar a abrir o manual escolar, iniciava as aulas com meditação (para nos preparar para o ambiente escolar e deixar as brincadeiras no lugar delas, no recreio). Depois pegava livros de contos e histórias em inglês e encenava tudo. Sair daquele habitual e cansativo método de ensino para este foi transformador. Consegui dar a minha primeira apresentação sem gaguejar. Foi o início da minha versão em que eu passei de dar apresentações incríveis a mostrar um desenvolvimento pessoal notável. Como disse: uma lagartinha a preparar o seu casulo.

Meu caro leitor, deves estar a questionar onde planeio chegar com este pequeno evento da minha vida. A questão é: eu não sabia nada de inglês, temia profundamente uma apresentação oral, contudo, porém, não obstante: as histórias moldaram-me como a pessoa que sou hoje.

Alicerçados a este evento da minha vida, apoiam-se estudos da cognição infantil. Deparei-me com eles recentemente. Estava a realizar um projeto para uma cadeira de literatura infantojuvenil, algo que me ajudasse a fundamentar a importância do livro-álbum no desenvolvimento emocional, para além da alfabetização visual, para o qual é habitualmente usado.

Para além do que procurava, foi-me deixado claro que as histórias são subvalorizadas como objeto de recurso no desenvolvimento emocional das crianças!

Desde tempos imemoriais, as histórias acompanham a humanidade. Antes mesmo da escrita, era através delas que eram transmitidos valores, medos necessários, sonhos e aprendizagens essenciais à vida em comunidade.

Vector por FreePick

Ouvir, ler e imaginar histórias não é apenas um ato de entretenimento, mas um verdadeiro processo de construção emocional, cognitiva e social. No contexto atual, marcado pela aceleração digital e pela fragmentação da atenção, torna-se ainda mais relevante refletir sobre a importância das histórias no desenvolvimento emocional das crianças.

A infância é um período determinante na formação da identidade emocional. É nesta fase que a criança começa a reconhecer sentimentos, a lidar com frustrações, a desenvolver empatia e a compreender o mundo que a rodeia. As histórias funcionam como um espaço seguro onde essas emoções podem ser exploradas, nomeadas e compreendidas.

Porém, é necessário discernir as histórias que ajudam e as que prendem e categorizam! Algumas obras organizam as emoções em categorias fixas e explicam ao leitor “como se deve sentir”. São úteis pedagogicamente, mas reduzem a experiência emocional e colocam a função literária em segundo plano. O resultado é um discurso pouco ambíguo e excessivamente explicativo. Cada criança é única, e generalizar sentimentos transforma divergências e problemas pessoais em algo geral, com soluções únicas.

Por outro lado, alguns livros tratam as emoções com verdadeira complexidade. Em vez de explicar, sugerem. Utilizam metáforas e imagens para representar o mundo interior do mais pequeno. Preservam a ambiguidade e respeitam a liberdade interpretativa. Dessa forma, permitem à criança lidar com a sua singularidade à sua maneira, respeitando as suas barreiras e sem estabelecer padrões gerais sobre como se deve sentir.

Uma das principais funções das histórias no desenvolvimento emocional é a identificação. As crianças tendem a projetar-se nas personagens, reconhecendo nelas emoções semelhantes às suas, pondo-se a pensar: “Eu também sinto isto”. Esta identificação reduz o sentimento de isolamento emocional e ajuda a criança a perceber que aquilo que sente é legítimo e partilhável.

Para além da identificação, as histórias promovem a empatia. Ao colocar-se no lugar do outro (de uma personagem), os mais pequenos desenvolvem a capacidade de compreender perspetivas distintas da sua. Esta competência emocional é fundamental para a convivência social, para o respeito pela diferença e para a construção de relações saudáveis. É através de leituras empáticas que trazemos representatividade. A empatia não se ensina apenas com regras; constrói-se através da experiência emocional, e as histórias são um dos seus veículos mais eficazes.

Vector por FreePick

Outro aspeto central é a regulação emocional, o ponto central que me levou a esta pequena análise. Muitas histórias infantis apresentam conflitos e tensões que, no final, encontram uma resolução. Este percurso narrativo ensina à criança que os momentos difíceis podem ser ultrapassados e que as emoções intensas não são permanentes. Ao observar como essas emoções são enfrentadas, a criança adquire ferramentas simbólicas para lidar com as suas próprias emoções e pensa: “Afinal, todos nós passamos por momentos difíceis” e “Está tudo bem não estar bem”.

As histórias desempenham também um papel crucial no desenvolvimento da linguagem emocional. Para que uma criança consiga expressar o que sente, precisa primeiro de ter palavras para o fazer. Os livros ampliam o vocabulário emocional, apresentando conceitos que muitas vezes não surgem no discurso quotidiano. Termos como “ansiedade”, “saudade”, “frustração” ou “coragem” ganham significado quando inseridos em narrativas concretas. Quanto mais rica for a linguagem emocional da criança, maior será a sua capacidade de comunicar, pedir ajuda e estabelecer relações equilibradas.

No contexto familiar, a leitura partilhada assume um valor acrescido. No momento da história, é criado um espaço de proximidade e segurança afetiva. A criança associa o livro não apenas ao conteúdo narrativo, mas também ao vínculo emocional com o adulto que lê. Este ritual fortalece laços, promove a escuta ativa e transmite a ideia de que as emoções merecem tempo e atenção. Num mundo cada vez mais acelerado e agarrado às redes sociais, estes momentos são fulcrais e tornam-se âncoras emocionais fundamentais.

As histórias ainda permitem abordar temas difíceis de forma simbólica e protegida. Questões como a morte, a doença, a solidão ou o medo do abandono podem ser exploradas por meio da metáfora, respeitando o ritmo e a maturidade emocional da criança. A literatura infantil não deve evitar estes temas; antes, deve tratá-los com cuidado e sensibilidade, oferecendo ao mais pequeno ferramentas para compreender realidades que, inevitavelmente, farão parte da sua vida. Um belo exemplo de obra neste contexto é Onde vivem os segredos, e convido-te a espreitar a mesma em https://trintaporumalinha.com.pt/produto/onde-vivem-os-segredos/.

Num plano mais alargado, o contacto regular com histórias contribui para a formação de crianças mais seguras emocionalmente e mais conscientes de si e dos outros. A capacidade de imaginar, de sentir com o outro e de refletir sobre emoções está diretamente ligada à saúde emocional na idade adulta. Investir na literatura infantil é, por isso, investir numa sociedade mais empática, equilibrada e humana.

Vector por FreePick

No trabalho editorial, esta responsabilidade é particularmente relevante. Cada livro publicado para crianças carrega consigo um potencial formativo que vai muito além da aprendizagem da leitura. A curadoria de histórias, a escolha de temas, a qualidade da escrita e da ilustração são decisões que têm impacto real no desenvolvimento emocional dos leitores mais novos. Publicar livros para crianças é um ato cultural, educativo e, acima de tudo, ético.

Num tempo em que os estímulos são rápidos e muitas vezes superficiais, as histórias oferecem profundidade, compreensão e, acima de tudo, tempo. Elas convidam as crianças e qualquer adulto a parar, a sentir e a pensar. Através delas, aprendemos que o mundo pode ser complexo, mas também compreensível; que as emoções podem ser intensas, mas também partilhadas; e que, mesmo nos momentos difíceis, há sempre espaço para a esperança e o crescimento.

Ler, contar e criar histórias é cuidar da infância. É dar às crianças não apenas palavras, mas ferramentas para compreenderem a si próprias e o mundo que as rodeia. É neste espaço que nós, mediadores, educadores e pais promovemos a construção de escuta, imaginação e afeto que, consequentemente, constroem leitores e pessoas mais conscientes, sensíveis e resilientes.

 

Cristiana Nunes

Partilha

Comentários!

Política de PrivacidadeI Termos e condições

© 2021 | Trinta-por-uma-linha

E-mail: geral@trintaporumalinha.com I Contacto: Rede fixa 226090272 I Rede Móvel 961827165