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Bruxas da Serra

Quando se fala em bruxas, associamo-las logo a figuras lendárias, encantatórias, que povoam as nossas memórias de infância, provocando-nos simultaneamente espanto, fascínio e medo.

Na idade adulta, essas memórias vão sendo, pouco a pouco, arrumadas e parecem desvanecer, até que algo as despoleta e as revigora, com novo fulgor e novo ânimo.

Foi precisamente o que aconteceu, há pouco tempo, ao revisitar um local conhecido como a “eira das bruxas”.

Sem antecipar o tumulto de ideias, de imaginações e de histórias que davam voltas e rodopios na minha cabeça, como se fossem pequenas bruxinhas a dançar em círculos - quando eu o que desejava era apenas contar carneiros - o que seriam, provavelmente, uma ou duas noites de insónia converteram-se em noites de escrita, de ritmo, de intuição e de criação!

As memórias da infância foram-se reacendendo e com elas o entusiasmo que sentia nos serões à lareira, onde ouvia dos avós e dos pais incríveis histórias de bruxas, de lobisomens, de mouras encantadas, de serpentes e de cobras enfeitiçadas, de grades de ouro e de provas e tentações demoníacas que ora me aterravam de medo, ora de admiração, desejando ser como uma bruxa, voar por toda a parte, transformar-me em qualquer coisa e ser imortal...

Com estas memórias ficou aumentada também a saudade dos avós e de todos os que já partiram, dos afetos, dos cheiros da cozinha, do calor das brasas que ainda ouço a crepitar, em conversa amena com as panelas de ferro…

Imbuída e embalada nestas viagens noturnas onde tempo, coração, razão e história se entrelaçam, escrevi os poemas sobre as bruxas da serra que agora se apresentam em formato livro.

São memórias de infância, às quais não resisti acrescentar pequenos detalhes que denunciam a influência da ocupação celta, a cultura pagã, o panteísmo, a valorização do universo feminina, a ligação da mulher à lua, à água e à natureza, as sociedades matriarcais que empoderam a mulher a que é confiado o dom da vida. Estes últimos detalhes, são tópicos que não sendo essenciais à compreensão dos poemas, permitirão leituras e explorações mais aprofundadas em segundas leituras.

Nestes poemas sobre as bruxas da serra, refiro locais, montanhas, rios, vales, espaços simultaneamente reais e imaginários, porque fisicamente existentes e transcendentalmente sentidos, carregados de magia e de encantamento.

Estes locais, estas bruxas e estas estórias, apesar de situados num determinado contexto, são universais, na medida em que estas estórias definem a nossa cultura, as nossas tradições e nos conferem identidade.

Com este livro, pretendo suscitar a curiosidade e o interesse pela literatura popular, de tradição oral, promover a criatividade, o imaginário infantil, a reflexão sobre ideias e preconceitos criados, criar cenários de leitura que ajudem a desconstruir tabus e a melhor compreender as nossas tradições pagãs, de origem celta e diversificar a temática, hoje muito dominada pela versão Disney que, na minha opinião, pode ser redutora.

Hoje, poder-se-ia discutir a atualidade do tema, pois quase todos negam acreditar em bruxas. Mas acreditar no invisível, no imaginário, no maravilhoso, no transcendental e no místico não será indispensável ao crescimento e ao desenvolvimento das nossas crianças?

Enquanto pais, alimentamos a crença no Pai Natal, na fada dos dentes, em Deus, Santos, duendes, elfos, feiticeiros, dragões, unicórnios, cavalos alados e em minotauros… Por que não falar também de bruxas? As bruxas são criaturas fabulosas, lendárias, fascinantes, capazes de feitos inimagináveis, símbolos de liberdade plena e de domínio da natureza. As crianças, e os adultos como eu, adoram histórias de bruxas!

Essas bruxas da serra, que eu ainda hoje, adulta, vislumbro no rumorejar das folhas, nos assobios dos ventos e na neblina que vai clareando com o amanhecer, são as que estão retratadas, cheias de poder, de magia, de liberdade e de intuição.

São estas bruxas que deixo aos meus leitores, desafiando-os a que também eles as procurem nas montanhas, nos vales e nos rios, as encontrem e dialoguem com elas, em silêncio, observando e interpretando os seus sinais confundidos com os da natureza.

Escrever estes poemas foi regressar às memórias de infância, voltar a sentar-me no banco de madeira, junto dos pais e avós, com o som da chuva fria a cair, lá fora, enquanto eu, aconchegada pelo calor da lareira e pelas palavras amenas e misteriosas dos mais velhos, os questionava “Há mesmo bruxas?”, acreditando piamente na confirmação “Sim, eu próprio as vi, à noite, quando ia regar, mas fiquei em silêncio para elas não me descobrirem, senão transformavam-me num animal para que eu nunca lhes desvendasse o seu segredo!”

Agora publicado, o livro “Bruxas da Serra” é dos leitores e é a estes a quem me dirijo e a quem peço que leiam, troquem opiniões, sonhem e acreditem, porque este mundo ganha mais sentido se conseguirmos vislumbrar o mundo que está escondido, encoberto, latente, porque tudo é possível, e porque podemos não acreditar em bruxas, mas que as há, lá isso há!

À Carla Nazareth que ilustrou estas minhas bruxas da serra de forma magnífica, captando a alma e a essência destas criaturas maravilhosas e ao João Manuel Ribeiro e à editora Trinta por Uma Linha que mais uma vez apostaram e investiram numa obra minha, o meu público agradecimento. Esta obra também é vossa!


Margarida Rocha

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