
Vector por pikisuperstar
Foi na faculdade, por iniciativa de uma amiga, que decidi instalar o TikTok. Um gesto aparentemente inocente, mas com repercussões pouco saudáveis na minha vida.
De acordo com a WordsRated, que compila factos e estatísticas, 48% dos utilizadores de TikTok começaram a ler mais livros depois de entrarem na plataforma. São cerca de 185 mil milhões de visualizações anuais de conteúdos com recomendações de livros, o que gera o equivalente a quase 3% de todas as vendas do setor editorial. Outro estudo, da Publisher’s Association, aponta que 59% das pessoas com idades entre os 16 e os 25 anos adquiriram o hábito de leitura graças a esta rede social.
Face a estes dados, decidi inserir-me no chamado BookTok, para descobrir os livros do momento e encontrar pessoas que, tal como eu, amam livros. No entanto, semanas depois, ao consultar a gestão de tempo da aplicação, onde é possível ver quanto tempo passamos na rede social, deparei-me com valores assustadores: passava entre quatro a seis horas diárias nas redes. O susto foi tal que desinstalei a aplicação e, desde então, luto diariamente para não recorrer ao Instagram, a minha outra rede de eleição.
Verdade seja dita, passei mais tempo no telemóvel do que a ler livros. Tendo em conta que o objetivo inicial era conhecer mais títulos e ler mais, o resultado foi claro: não correu bem.
Mais de uma vez, ao partilhar esta história, dizem-me que tenho falta de autocontrolo. Porém, ouso discordar. Se tivesse falta de controlo, ainda lá estaria, a gastar o meu tempo, a ler menos e a consumir conteúdos que, na maioria das vezes, não alimentavam a minha alma como os livros fazem. Outras vezes, quando descobrem que não tenho essa rede social há anos, ficam chocados: como é possível abdicar de algo tão socialmente fundamental? Foi uma escolha pessoal. Tenho outras redes sociais, outros interesses, jogo até alguns jogos no telemóvel e enfrento, anualmente, a ocasional febre de Minecraft.
Vivemos numa era em que os ecrãs são um dos pilares do quotidiano, muitas vezes desde muito cedo. Tablets, telemóveis, televisões e consolas estão presentes em casa, na escola e nos momentos de lazer.
Muitos enfrentam o mesmo desafio que eu: tentar estabelecer um equilíbrio entre livros e ecrãs. Quando este tema se cruza com a infância, o receio é ainda maior. Como garantir que as crianças leem mais?
A boa notícia é que o equilíbrio entre tempo de leitura e tempo de ecrã não precisa de ser dramático, rígido ou culpabilizante, como foi o meu. Pelo contrário: quando encarado com serenidade, pode tornar-se uma oportunidade para criar relações mais saudáveis com ambos os mundos.
Antes de pensarmos em estratégias práticas, importa fazer um pequeno ajuste de perspetiva: o problema não é o ecrã em si, mas a forma como ele ocupa, ou monopoliza, o tempo, a atenção e a imaginação da criança. Eu não desisti dos ecrãs; decidi, isso sim, controlar o meu tempo.

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O ecrã não é o inimigo
É tentador olhar para os ecrãs como o grande vilão da infância contemporânea. No entanto, esta visão simplista raramente ajuda. Os ecrãs também contam histórias, estimulam a curiosidade, promovem aprendizagens e fazem parte da cultura atual. Muitas crianças desenvolvem interesses, vocabulário e referências narrativas através de séries, filmes, jogos e vídeos.
O meu próprio desenvolvimento em inglês foi lento; já o da minha irmã, atualmente de seis anos, é notavelmente mais rápido. Ela sabe muito mais do que eu sabia na idade dela. Para além disso, existem aplicações infantis que estimulam a cognição e o desenvolvimento dos mais pequenos. Podemos e devemos tirar partido disso.
O verdadeiro desafio não está em eliminar o tempo de ecrã, mas em evitar que ele substitua todas as outras experiências, especialmente aquelas que exigem um ritmo mais lento, como a leitura. O equilíbrio começa quando deixamos de pensar em termos de “ou isto ou aquilo” e passamos a pensar na convivência entre práticas.
Leitura e ecrã não competem — complementam-se
Uma das maiores armadilhas no discurso sobre a leitura é colocá-la em oposição direta aos ecrãs. Quando a leitura surge como a “alternativa correta” ao tablet ou ao telemóvel, corre o risco de ser associada à obrigação e à perda. Parece quase um castigo ou uma moeda de troca, em vez de algo que poderia ser divertido e prazeroso.
A leitura deve, antes, ser integrada como mais uma forma de estar, imaginar e descansar. Quando a criança percebe que ler não significa abdicar de tudo o resto, mas ganhar algo diferente, a resistência diminui.
Além disso, muitas narrativas transitam hoje entre formatos: livros que dão origem a filmes, séries que despertam vontade de ler, jogos baseados em histórias literárias. Estes cruzamentos podem e devem ser usados a favor da leitura, em vez de serem vistos como ameaças. Foi o desejo de saber o final de uma coleção de filmes que me levou a ler na infância. Muitos leitores ávidos começaram assim.
O papel do adulto: menos controlo, mais mediação
Grande parte do conflito em torno do tempo de ecrã nasce da tentativa de controlo absoluto. Limites são importantes, claro, mas quando não são acompanhados de diálogo e exemplo, geram frustração.
As rotinas são fundamentais para o equilíbrio, mas não precisam de ser rígidas ou inflexíveis. Em vez de horários fechados e regras inquestionáveis, pode ser mais eficaz estabelecer momentos do dia naturalmente associados à leitura: antes de dormir, depois do jantar, ao fim da tarde ou durante um momento de pausa.
O importante é que a leitura tenha um lugar reconhecível no quotidiano. Mesmo quinze minutos por dia, quando consistentes, fazem a diferença. Mais do que a quantidade de páginas lidas, conta a regularidade e a qualidade da experiência.
Oferecer alternativas, não proibições
Retirar abruptamente o ecrã sem oferecer alternativas tende a gerar resistência. Em vez disso, vale a pena criar condições para que a leitura surja como uma opção atrativa.
Livros acessíveis, capas apelativas, temas próximos dos interesses da criança e liberdade de escolha fazem toda a diferença. Uma criança que gosta de mistério, humor ou fantasia terá mais facilidade em largar o ecrã se encontrar histórias que dialoguem com esses gostos.
Também aqui o exemplo é essencial: quando o adulto escolhe um livro em vez do telemóvel num momento de pausa, transmite uma mensagem poderosa, sem precisar de palavras.

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A leitura como espaço de desaceleração
Se os ecrãs são rápidos, luminosos e imediatos, a leitura oferece algo diferente: tempo. Tempo para sentir, imaginar, pensar e voltar atrás. Esta desaceleração é particularmente importante no desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças.
Ao contrário de muitos conteúdos digitais, o livro não impõe um ritmo externo. A criança pode parar, reler, imaginar e questionar. Este controlo do tempo narrativo é uma aprendizagem valiosa num mundo cada vez mais acelerado.
Quando apresentada desta forma, a leitura deixa de ser uma concorrente do ecrã e passa a ser um complemento necessário.
Cada família, cada criança e cada contexto são diferentes. Comparações constantes, com outras crianças, outros tempos ou outras formas de educar, raramente ajudam. O equilíbrio não é um modelo fixo, mas um processo em construção.
Haverá dias com mais ecrã, dias com mais livros e dias sem nenhum dos dois. O importante é a tendência, não a perfeição. Criar uma relação saudável com a leitura e com a tecnologia é um percurso longo, feito de tentativas, ajustes e escuta.
Quer seja num livro ou num ecrã, as crianças procuram histórias. O que podemos fazer é garantir que essas histórias são diversas, ricas e adequadas ao seu desenvolvimento. Os livros oferecem algo único: profundidade, ambiguidade e espaço para a imaginação individual.
Equilibrar tempo de ecrã e tempo de leitura não significa escolher um lado, mas aprender a habitar ambos com consciência. Sem dramas, sem guerras domésticas e sem discursos moralistas.
Porque, no final, quando a leitura faz parte da vida, e não de uma obrigação, ela encontra sempre o seu lugar.
Cristiana Nunes