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Como eu adorava as férias. Fosse no Natal, no Carnaval, na Páscoa ou no verão, cada pausa tinha a sua própria magia. Nos primeiros dias, perdia-me em frente à televisão: a Floribella, a Lua Vermelha que passava na SIC, ou aqueles filmes de época, de baixo orçamento, que surgiam religiosamente nas tardes da Fox Life. O tempo parecia infinito, e eu deixava-me ficar ali, sem horários, sem TPC para me ocupar ou obrigações.
Mas, passados alguns dias, vinha o tédio. A televisão deixava de ter graça, e lá fora estava sempre calor ou frio a mais para sair. Começava quase a desejar que a escola regressasse depressa, só para voltar a ver os amigos e aprender algo novo.
Foi então que descobri os livros e, com eles, as minhas férias escolares mudaram por completo. Passei a perder-me entre páginas, histórias e personagens, como quem encontra um mundo secreto. Houve um verão em que cheguei a ler cerca de trinta livros só nas férias, quase todos encontrados em blogues literários online.
Nenhuma supermãe consegue competir com uma filha que, por vezes, devorava um livro por dia. Tive de arranjar um método eficaz para alimentar a minha fome por palavras, e foi nesses blogues que encontrei o meu refúgio e, sem saber, o início de um hábito que nunca mais me deixou.
Também para muitas outras crianças, as férias representam um tempo de pausa, liberdade e descoberta. São dias menos estruturados, longe dos horários rígidos da escola, em que o tempo parece alongar-se de tão calmo e ganhar novas possibilidades. No entanto, este período de descanso pode também levantar uma preocupação recorrente entre pais, educadores e mediadores de leitura: como manter o contacto com os livros sem transformar a leitura numa obrigação escolar? E como tornar esta “obrigação” num prazer?
Incentivar o hábito de leitura nas férias e no início de um novo período escolar não passa por impor metas ou listas obrigatórias, mas por criar experiências significativas com os livros. A leitura, quando associada ao prazer, à curiosidade e à relação afetiva, torna-se um hábito duradouro.
Para ti, nós, a Trinta-por-uma-linha, decidimos trazer algumas estratégias práticas para promover a leitura de forma equilibrada e divertida!

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Durante o ano letivo, a leitura costuma ser associada à avaliação, à interpretação de textos e à insegurança de não entendermos realmente o que é esperado de nós com aquela obra. Embora estas dimensões sejam importantes (tirando a última, claro), também podem afastar a criança do prazer de ler, sobretudo quando a leitura é percepcionada como uma tarefa, logo uma que implica certas consequências, como más notas ou uma repreensão dos pais ou professores.
As férias oferecem, por isso, uma oportunidade preciosa para resgatar a leitura enquanto experiência livre, sem fichas, testes ou expectativas de desempenho.
É fundamental que os livros deixem de ser vistos apenas como extensões da escola. Ler nas férias pode significar ler menos, mas melhor; ler por curiosidade, por diversão ou até por simples acaso. Ler um Harry Potter pode não ser tão útil para o desenvolvimento académico, mas para o espírito… é tudo.
Criar um ambiente leitor em casa
Um dos fatores mais determinantes para o desenvolvimento do hábito de leitura é o ambiente em que a criança cresce. Casas onde os livros estão visíveis, acessíveis e integrados no quotidiano tendem a favorecer e a criar pequenos leitores. Não se trata de ter grandes bibliotecas, mas de garantir que os livros fazem parte do espaço vivido. Então, este ano, entre os brinquedos, adiciona livros. Tenho a certeza de que, nos dias tediosos, as crianças se vão deparar com aquele objeto e deixar a curiosidade ir mais longe. Pelo menos, foi assim comigo. Isso aconteceu porque não aceitei que não houvesse continuação dos filmes de Percy Jackson e precisava mesmo de saber como terminava aquela trama — terminei por ler os cinco livros da coleção numa semana.
Durante as férias, este ambiente pode ser reforçado de várias formas: criar um canto de leitura confortável, levar livros para a praia ou para o campo, ter sempre um livro à mão nas deslocações ou nos momentos de espera. O livro deve ser apresentado como uma possibilidade natural de ocupação do tempo, ao lado do brincar. Quem me conhece sabe que, religiosamente, transporto comigo um livro para onde quer que vá, caso surja uma oportunidade.

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Respeitar os interesses e os ritmos de cada criança
Um erro comum na promoção da leitura é tentar impor livros “adequados”. Embora a mediação seja importante, o gosto pela leitura constrói-se a partir do reconhecimento da individualidade. Há crianças que preferem narrativas longas, outras que se sentem mais confortáveis com livros ilustrados, bandas desenhadas ou textos curtos. Todas essas formas são válidas e adequadas neste contexto.
Nas férias, é especialmente importante permitir escolhas livres. Não há leituras “menores” quando falamos de formação de leitores. Toda a leitura é uma leitura e deve ser celebrada como tal. Um livro relido várias vezes pode ser tão significativo quanto uma novidade; uma história simples pode gerar mais envolvimento emocional do que um texto complexo imposto pelo adulto.
Respeitar o ritmo também implica aceitar períodos de maior ou menor interesse. O hábito de leitura não é linear e não deve ser forçado. A insistência excessiva pode gerar rejeição, o que acaba por acontecer na escola, com a imposição e obrigação daqueles textos estabelecidos pelo programa. Aqui, nas férias, vamos trabalhar no gosto, no prazer. Deixemos a grande literacia portuguesa para as aulas. Bem sei que, no início de 2025, li muito pouco; terminei o ano a devorar quinze livros nos últimos meses. Não é contínuo; é preciso dar tempo e carinho ao prazer que surge na leitura.
A leitura partilhada como experiência afetiva
A leitura em voz alta continua a ser uma das estratégias mais eficazes para incentivar o gosto pelos livros. Num dos últimos artigos, já discuti o valor e a importância deste ato. Neste contexto de férias, a leitura partilhada ganha ainda mais relevância, por estar associada a momentos de descanso e disponibilidade emocional.
A criança não lê apenas a história: lê também o tom de voz, o tempo dedicado, a atenção do adulto. Estes elementos reforçam a ligação positiva ao livro e transformam a leitura num momento esperado e valorizado. Quem não gosta de ver um pai interpretar um monstrinho?
No regresso à escola, esta prática pode manter-se como um ritual semanal, ajudando a criança a gerir a transição entre o tempo livre e as exigências. A leitura partilhada funciona, assim, como uma pausa do mundo e das tecnologias — aquele momento com a mamã ou o papá.

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Integrar a leitura no quotidiano das férias
Nem sempre é necessário reservar um “tempo especial” para ler. Pelo contrário, integrar a leitura nas rotinas informais das férias pode torná-la mais natural e menos associada à obrigação. Ler antes de dormir, após o almoço, num momento de pausa ou num dia de chuva são exemplos de como os livros podem acompanhar o ritmo do dia.
Outra estratégia eficaz passa por relacionar os livros com experiências vividas: uma visita pode ser acompanhada por um livro sobre o tema; uma pergunta pode levar a uma história; uma emoção pode encontrar eco numa narrativa. Desta forma, a leitura deixa de ser um ato isolado e passa a dialogar com o mundo real, enquanto desenvolve um leitor crítico e empático. É na ligação com o mundo real que desenvolvemos a sensibilidade, a compreensão e a alfabetização emocional na criança através da leitura.

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Incentivar o hábito de leitura nas férias e no regresso à escola é, acima de tudo, um exercício de cuidado. Cuidar do tempo, do ritmo, das emoções e da curiosidade da criança. Ler não é apenas aprender a decifrar palavras; é aprender a compreender o mundo, a si próprio e os outros.
Manter o contacto com os livros após as férias é mais fácil quando a leitura não é abruptamente substituída pelas obrigações escolares. Criar continuidade ajuda a consolidar o hábito e a evitar que a leitura fique exclusivamente associada ao trabalho escolar.
Quando a leitura é apresentada como uma experiência significativa, livre e afetiva, torna-se um gesto que acompanha a criança para lá da escola e para lá da infância. É nesse espaço que se formam leitores, mas também pessoas mais conscientes, empáticas e imaginativas.
Investir na leitura é investir no futuro — não apenas académico, mas humano.
Cristiana Nunes


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