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Ecoliteracia e Literatura 

para a Infância

Ecoliteracia

Inicialmente, o termo literacia era usado para significar o conhecimento acerca de «como ler», mas foi-se alargando até abranger em simultâneo a leitura e a escrita. Segundo a International Reading Association e o National Council of Teachers of English, a literacia é a «competência para levar a cabo tarefas complexas de leitura e de escrita relacionando-as com o mundo laboral e com a vida fora da escola». O termo aparece hoje também associado a domínios distintos da escrita e da leitura, como a literacia computacional, cultural, ecológica, do consumidor, da informação e visual. Pode, pois, definir-se literacia como a capacidade de processamento na vida quotidiana, pessoal, profissional e social de informação escrita de uso corrente.


Quando falamos de ecoliteracia, ou literacia ecológica, referimo-nos ao conjunto competências e conhecimentos que alguém «manipula» de forma a relacionar-se, em termos de mentalidades, de valores e de comportamentos, de forma harmoniosa ou sustentável com o mundo, na vertente ecológica e/ou ambiental. A ecoliteracia, sendo um conceito dinâmico que envolve a totalidade da pessoa, não pode ser alheia às crianças, preparando-as e desafiando-as desde cedo para o paradigma duma nova relação ecológica.

Ambiente e literatura para a infância

Como referem Rui Ramos e Ana Margarida Ramos, no artigo «Ecoliteracia e literatura para a infância: quando a relação com o ambiente toma conta dos livros» (in Solta Palavra, 19, p.17 a 24), A literatura para a infância não é alheia, desde a sua génese, à necessidade de se vincular ideologicamente a princípios e valores tidos como relevantes e determinantes para a formação do indivíduo e para a sua relação com os outros e com o meio onde se insere, associados a uma dimensão pedagógica alvo de um tratamento privilegiado por parte de muitos autores. Esta dimensão, sem se reduzir a inculcação de princípios morais, ou códigos de conduta específicos, concretiza-se em objetivos pragmáticos de informação, formação e educação para um conjunto diversificado de valores, entre os quais se encontra a defesa do ambiente.


Nos anos 60, assiste-se à emergência desta temática, sobretudo pela escrita dos neorrealistas como Alves Redol (A vida mágica da sementinha, 1956), Papiniano Carlos (A Menina Gotinha de Água, 1962), autores que, sem dispensar a poeticidade da vida, mas com aguda consciência social e política, procuraram a análise dos problemas emergentes do seu tempo com o fito de procurar e encontrar a “verdade absoluta”, sobrepondo a análise do carácter à comoção do sentimento.


Na década de 70, o prémio ‘O Ambiente na Literatura Infantil’, destinado a distinguir trabalhos relacionados com problemas do Ambiente e dirigidos a crianças e jovens, veio destacar a temática e convocar autores. Instituído em 1975 (portarias nº 426/85, de 5 de julho e nº 7/90, de 8 de janeiro), destinava-se a galardoar escritores em língua portuguesa cujas obras se dirigissem especialmente a crianças e jovens e abordassem a temática ambiental. Em 1978, o júri foi unânime em considerar que nenhuma das obras apresentadas a concurso era merecedora do prémio e propôs a alteração do regulamento de modo a poderem ser admitidos trabalhos não editados, passando a haver duas categorias, mas no ano seguinte, considerou novamente que nenhuma das obras reunia condições mínimas para que lhe fosse atribuído o prémio. Em 1984 e em 1986 voltou a não ser atribuído. Por fim, em 1990, na categoria das obras editadas pela primeira vez, não foi atribuído prémio.

De entre os premiados, merecem especial destaque:


Sidónio Muralha, com Valéria e a Vida (1976), e Helena e a Cotovia (1979), Voa pássaro, voa (1978), Terra e Mar Vistos do Ar (1981) e alguns dos contos de Sete cavalos na berlinda (1977).


José Jorge Letria, com os premiados títulos, O Grande continente azul (1982), Histórias do arco-íris (1983), Uma viagem no verde (1985), O pequeno pintor (1989).


Clara Pinto Correia, com O Sapo Francisquinho (1986), e A Ilha dos Pássaros Doidos (1994).


Outros autores que integram a lista de vencedores são Carlos Correia, Maria Alberta Menéres e Natércia Rocha.

Ecoliteracia e LIJ na atualidade

Nos últimos anos, a preocupação ambiental conheceu uma atenção particular por parte dos autores, como:


Luísa Ducla Soares, com O Mar (2008) e O Planeta azul (2008).


Bernardo Carvalho, com Um dia na praia (2009), e Praia-Mar (2011) a trilogia intitulada “Histórias paralelas”, As Duas Estradas (2009), Trocoscópio (2010); O Livro dos Quintais (2010) e Um dia na praia (2009).


Pedro Seromenho, com Felismina Cartolina e João Papelão, Uma Paixão de Papel e Cartão (2011), O Palhaço Avaria e o Planeta Bateria (2011), Maria Botelha a Garrafa Aventureira (2011), Chico Fantástico Super Herói de Plástico (2011).


João Manuel Ribeiro, com Raras Aves Raras (2010), O senhor Péssimo é o Máximo (2012),e Pequenos corações verdes (2016).


Margarida Rocha, com Há incêndio na floresta (2018).


Manuel Duarte Pinheiro, com O Rodendro de Diana (2019).


Carmen Zita Ferreira, com Roubar ao Mar (2019)

Conclusão

A literatura para a infância e a juventude proporciona um contacto com a ecologia ambiental mediado pela imaginação. Na atualidade, constata-se a existência de um número significativo de obras que tratam a questão ambiental de forma aprofundada, não escondendo os aspetos negativos e respetivas causas e consequências e desafiando a uma visão crítica do mundo contemporâneo, problematizando práticas e valores, com o propósito de (ajudar a) criar indivíduos conscientes, informados e formados, em termos de ecoliteracia.


João Manuel Ribeiro

[Texto publicado no n.º 9 de A Casa do João - Revista de Literatura Infantil e Juvenil]

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