Ideias simples para trabalhar livros na escola sem fichas nem testes

Mediação da leitura de forma criativa, significativa e possível no dia a dia

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Como leitora ávida, no meu mundo pequeno e limitado, não entendia a definição de mediador de leitura. Nunca tive necessidade de o ser e o meu meio social não o requeria. Pelo menos até recentemente.

A minha avó tem 87 anos; cresceu e subsistiu da agricultura e da criação de gado. Teve 10 filhos. Nunca aprendeu a ler ou teve acesso à educação. Um dia, quando fui visitá-la e aos cavalos que tanto amo, ela pediu-me para lhe ler uma carta. Era relativa a uma consulta no hospital.

Foi nesse momento que, não entendi, mas compreendi que nem todos têm a sorte que eu tenho de ter acesso à educação e à leitura. Há 80 anos, altura em que a minha avó deveria começar os estudos, as mulheres em Portugal tinham acesso restrito à educação, muito mais limitada do que a dos homens, face à nossa sociedade patriarcal e machista. É escusado alongar a explicação para além do acesso ser difícil e, para as sortudas que conseguiram sentar-se numa mesa em frente a um professor, não viam um tratamento igualitário. A acumular a este fator, a alfabetização era um requisito para as mulheres poderem votar, para além da obrigatoriedade de serem chefes de família e pagarem impostos. Todos estes requisitos raramente eram preenchidos e só em 25 de abril pudemos conquistar o direito pleno de tal.

80 anos não é assim tanto tempo… Tive por pouco de não ter acesso àquilo que mais amo de fazer na minha existência — ler. O que seria eu sem a leitura? Sem esta paixão que me move?

Agora, quando olho para aquela senhora de 87 anos, sempre que me pede para lhe ler uma nova carta, só consigo pensar nas oportunidades que eu tive e nas que lhe foram retiradas ao nascimento.

Já a minha irmã de 6 anos, sei que ela terá mais direitos que eu, sei que receberá de forma pelo menos mais igualitária, ao contrário de mim, que trabalho num país onde as mulheres recebem 16% a menos que os colegas masculinos nas mesmas condições e funções (a disparidade sobe para 26% em cargos de topo) o que corresponde, em média, a 232€ a menos mensalmente (dados divulgados pela Pordata em 2025). Ela vai viver uma igualdade que eu não vou, da mesma maneira que eu vivi uma que a minha avó não pode viver. A desigualdade está a diminuir, é isso que vários estudos apontam, tendo o belo exemplo dos dados apurados pelo GEP-MTSSS.

O mundo está a mudar, neste aspeto, a melhorar. Porém, uma coisa é garantida: podemos tornar-nos um país onde todos os 11 milhões de cidadãos são alfabetizados, mas sempre vamos ser mediadores de leitura para as gerações vindouras. Vamos ensinar a cada criança as letras do alfabeto; vamos ler histórias o suficiente até ao dia em que elas possam desvendar o puzzle de letras que é um livro. Até mesmo depois disso, poderemos nos sentar e ler um conto, uma história ou apenas um capítulo.

Por isso, como mediadores de leitura, o nosso papel não é simples. Nós somos a ponte entre livros e leitores. Somos formadores de leitores críticos e sensíveis. Criamos debatedores. Promovemos vínculos afetivos com os livros. Damos a lupa e o mapa para um aventureiro explorar os infinitos mundos e emoções.

 

Existe muitas formas de sermos mediadores, nas escolas ou em casa, porém como podemos ser mediadores da leitura de forma criativa e significativa?

Dando especial ênfase ao contexto escolar, principal ambiente onde se forma a interpretação crítica, a leitura continua a ser acompanhada por um ritual quase automático: ler um livro e, no final, preencher uma ficha de leitura ou realizar um pequeno teste. Esta prática, profundamente enraizada no sistema educativo, nasce quase sempre de uma boa intenção. Promover o senso crítico, avaliar a compreensão, sistematizar conteúdos. No entanto, para muitos professores, mediadores, surge uma pergunta cada vez mais frequente: será esta a única forma de trabalhar livros na escola? E em casa?

A resposta curta é não. E a resposta longa passa por repensar o lugar da leitura no quotidiano escolar, o papel da mediação e o tipo de experiências que queremos proporcionar às crianças enquanto leitoras em formação.

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O cansaço das fichas de leitura

As fichas de leitura tornaram-se, ao longo do tempo, um recurso quase obrigatório. São fáceis de aplicar, permitem recolher evidências de trabalho e encaixam bem num modelo de avaliação formal. No entanto, também trazem consigo algumas limitações evidentes.

Quando a leitura é sempre seguida de uma ficha, a criança aprende rapidamente que ler é uma tarefa que culmina numa obrigação escrita. Parece um castigo. A atenção desloca-se da história para a avaliação, do prazer para o desempenho. Para alguns alunos, sobretudo os que já sentem dificuldades na leitura ou na escrita, esta associação pode tornar-se um fator de desmotivação.

Isto não significa que as fichas sejam sempre inúteis ou que devam ser abolidas. Significa, antes, que não precisam de ser a única resposta. A leitura pode, e deve, ser trabalhada de outras formas, mais flexíveis, mais criativas e mais próximas da experiência real de ler.

 

O livro como ponto de partida, não como fim

Uma das ideias centrais da mediação da leitura é esta: o livro não termina na última página. Pelo contrário, é muitas vezes depois da leitura que o trabalho mais interessante começa.

Quando se lê um livro em sala de aula, abre-se um campo de possibilidades. Surgem comentários espontâneos, perguntas inesperadas, ligações com experiências pessoais, observações sobre personagens ou ilustrações. Tudo isto são sinais de envolvimento leitor e matéria-prima preciosa para o trabalho pedagógico.

Trabalhar livros sem fichas nem testes passa, em grande parte, por valorizar estes momentos e transformá-los em propostas significativas, sem cair numa lógica excessivamente formal ou avaliativa.

 

Atividades simples que substituem fichas e testes

Ao contrário do que por vezes se pensa, não é necessário criar projetos complexos ou atividades muito elaboradas para trabalhar livros de forma eficaz. Muitas das propostas mais bem-sucedidas são simples, rápidas de implementar e facilmente adaptáveis a diferentes idades.

Escrita breve e significativa

Em vez de uma ficha com várias perguntas, pode propor-se uma produção escrita curta, ligada à leitura. Um pequeno texto, uma frase escolhida com cuidado, uma pergunta deixada em aberto. A escrita deixa de ser um exercício de resposta e passa a ser um gesto de interpretação.

Cartões, postais, bilhetes ou pequenas notas escritas permitem observar a compreensão do texto, o vocabulário mobilizado e a relação da criança com a história, sem a pressão de um formato rígido.

Marcadores de livros e objetos de leitura

Os objetos associados ao livro, como marcadores, são ferramentas simples, mas muito eficazes. Criar um marcador inspirado na história obriga a criança a regressar ao texto, a escolher um elemento significativo e a representá-lo visualmente ou por escrito.

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Murais, exposições e trabalho coletivo

Outra alternativa às fichas individuais é o trabalho coletivo. Murais com frases retiradas do livro, desenhos inspirados na história ou palavras-chave escolhidas pelos alunos tornam a leitura visível no espaço escolar.

Este tipo de proposta valoriza a partilha, o diálogo e o trabalho em grupo, mostrando que a leitura também é uma experiência social. Além disso, permite ao professor observar o envolvimento dos alunos de forma contínua e natural.

A leitura em voz alta como estratégia central

Uma das ferramentas mais poderosas para trabalhar livros na escola é, muitas vezes, também a mais simples: a leitura em voz alta. Tive uma professora que fazia isto, obrigava todos a estarem atentos porque, a qualquer momento, trocava o aluno que estava a ler por outro. Lembrou-me de ficar tão focada em cada palavra que lia.

Ler em conjunto, ouvir uma história, acompanhar o ritmo da narrativa sem a pressão imediata de uma tarefa escrita cria um ambiente de escuta e atenção partilhada.

A leitura em voz alta não serve apenas para introduzir um livro. Pode ser um momento autónomo de trabalho, onde se desenvolvem competências de compreensão, escuta ativa e interpretação. Além disso, a leitura em voz alta é particularmente inclusiva.

Permite que alunos com diferentes níveis de leitura acedam ao texto em condições de igualdade, promovendo um contacto mais democrático com os livros.

 

Avaliar sem fichas: o que se observa no processo

Uma das principais preocupações dos professores quando se fala em abandonar fichas e testes é a avaliação. Como avaliar sem um instrumento formal? A resposta passa por compreender que avaliar não é apenas recolher respostas escritas.

Ao longo das atividades de mediação da leitura, é possível observar:

  • a participação nas conversas;

  • a capacidade de escuta;

  • a forma como a criança se refere à história;

  • o vocabulário utilizado;

  • as ligações que estabelece com outras leituras ou experiências;

  • o envolvimento nas propostas criativas.

Esta observação contínua, integrada no processo, fornece informação rica e significativa sobre o desenvolvimento do leitor. Não substitui totalmente os instrumentos formais, mas complementa-os de forma muito mais humana e contextualizada.

 

O papel do professor e do mediador

Trabalhar livros sem fichas nem testes implica também uma mudança de postura do adulto. O professor ou mediador deixa de ser apenas quem verifica respostas e passa a ser quem cria condições para a leitura acontecer.

Isso exige disponibilidade para escutar, aceitar respostas inesperadas e lidar com alguma imprevisibilidade. Nem sempre o resultado é “arrumado” ou facilmente quantificável, mas é frequentemente mais autêntico.

Mediar a leitura não é controlar cada interpretação, mas acompanhar o processo, confiar no texto e nos leitores e reconhecer que cada leitura é, inevitavelmente, diferente.

Assim, quando a leitura deixa de estar sempre associada a uma ficha ou a um teste, algo muda. O livro passa a ser visto como um espaço de descoberta, não como uma tarefa a cumprir. A relação com a leitura torna-se mais livre, mais curiosa e mais próxima daquilo que esperamos de um leitor ao longo da vida.

 

As fichas e os testes têm o seu lugar, mas não precisam de ocupar todo o espaço. Existem muitas formas simples, acessíveis e eficazes de trabalhar livros na escola, sem recorrer sempre aos mesmos formatos.

Ao apostar em propostas criativas, abrimos caminho para uma relação mais rica e duradoura com os livros. E, no fim de contas, é isso que desejamos: formar leitores que leem não porque são avaliados, mas porque encontram sentido, curiosidade e prazer na leitura.

 

Cristiana Nunes

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