Livros sobre amizade e primeiros afetos

Leituras para acompanhar o crescimento emocional das crianças

Vector por FreePick

Fevereiro chega todos os anos carregado de símbolos: corações, palavras bonitas, gestos de carinho.

Lembro dos meus dias de escola. Lembro de como escrevi uma carta para cada colega de turma e cada professor. Lembro da alegria e do amor que senti quando o cupido da escola, todo vestido de vermelho e corações, as entregou. Eles todos a lerem, a compararem, a estudarem a minha criatividade e emoção. Foi uma atividade gira, única e que para sempre estará na minha memória.

Este mês pode ser muito mais do que uma data específica no calendário. É uma oportunidade privilegiada para falar de empatia, amizade e carinho.

A amizade é, para muitas crianças, a primeira grande experiência emocional fora do núcleo familiar. É através dela que aprendem a partilhar, a lidar com conflitos, a gerir frustrações e a reconhecer o outro como alguém diferente de si. Tudo isto acontece muito antes do amor romântico e merece espaço, tempo e linguagem.

É aqui que os livros e a escrita desempenham um papel fundamental. Para mim, foi a maneira que encontrei para me expressar e, para outras crianças, não é diferente.

Porque é importante falar de sentimentos desde cedo?

Educar emocionalmente é, acima de tudo, sobre criar condições para que a criança reconheça o que sente, perceba que não está sozinha nas suas emoções e descubra formas saudáveis de as expressar.

Quando uma criança aprende a identificar sentimentos está a desenvolver competências essenciais para a vida: empatia, comunicação e relação. Os livros ajudam nesse processo porque criam uma distância segura que permite observar, refletir e conversar sem julgamento.

Uma história bem escolhida pode dizer aquilo que, muitas vezes, ainda não se consegue dizer em voz alta.

Os livros que abordam a amizade não mostram relações perfeitas. Mostram encontros e desencontros, conflitos e reconciliações, momentos de cumplicidade e instantes de solidão. Mostram crianças que erram, que se magoam, que aprendem.

É nessa imperfeição que reside a força destas histórias. Ao ler sobre personagens que sentem raiva de um amigo, que têm medo de ficar sozinhas ou que não sabem como pedir desculpa, as crianças reconhecem emoções que já viveram — mesmo que nunca as tenham verbalizado. Ler sobre amizade é, muitas vezes, uma forma de normalizar o que se sente.

A leitura pode ser um poderoso ponto de partida para o desenvolvimento emocional e o bem-estar social das crianças, sobretudo quando acompanhada de propostas que incentivam a expressão, a escuta e a relação com o outro. A partir dos livros e escrita, é possível criar momentos em que as crianças aprendem a reconhecer sentimentos, a colocá-los em palavras e a compreender as emoções dos colegas, fortalecendo laços de amizade e empatia.

Tendo isto em conta, deixo-vos aqui algumas atividades para fazer em sala de aula ou em casa com toda a família! Estas atividades foram pensadas com o objetivo de ajudar e apoiar no crescimento emocional, na promoção da convivência positiva em grupo e na utilização da literatura como ferramenta para cuidar das relações e do equilíbrio emocional desde cedo.

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Vamos ler sobre sentimentos?

Para podermos realizar estas atividades, primeiramente precisamos de encontrar o livro certo. Tendo isso em conta, nós, a Trinta-por-uma-linha, trazemos-te a obra Mas eu quero escrita por Carina Novo e ilustrada por Libânia Freitas. Este livro é particularmente eficaz para trabalhar sentimentos com crianças porque parte de uma emoção muito reconhecível: a frustração de não poder fazer o que se deseja.

O livro não diz à criança o que deve sentir nem invalida o desejo de independência. Pelo contrário, reconhece esse desejo, acompanha-o até às suas consequências e mostra, de forma natural, que crescer envolve aprender a gerir emoções contraditórias: querer mandar e precisar de apoio, querer liberdade e precisar de segurança.

Para pais, educadores e mediadores, Mas Eu Quero! abre espaço para conversas essenciais: “Já te sentiste assim?”, “O que fazes quando alguém te diz que não?” ou “Como sabemos quando estamos prontos para fazer algo sozinhos?”.

Um outro livro perfeito para a ocasião é Gêmeos. Trata-se de uma obra especialmente interessante para trabalhar sentimentos com crianças porque transforma o abstrato em concreto: emoções difíceis de explicar ganham corpo, rosto e relação.

Ao personificar os sentimentos em dois pares de gémeos, Ódio e Medo, Paz e Amor, a narrativa ajuda a criança a perceber que as emoções não surgem isoladas. Elas convivem, entram em conflito e influenciam-se mutuamente. Esta abordagem facilita a identificação emocional, sobretudo em idades em que ainda é difícil nomear o que se sente.

É a obra perfeita para trazer perguntas como “É possível sentir coisas diferentes ao mesmo tempo?”. Descobre mais sobre ela aqui!

 

Depois da leitura do livro escolhido em grupo, já podemos dar início à nossa oficina criativa!

A atividade pode desdobrar-se de muitas formas, porém o ponto de partida é sempre o mesmo: ler, conversar e criar a partir da história. Sem comentar que cria alguns presentes de São Valentim muito charmosos!

 

Cartões literários: afetos em palavras próprias

Depois de um livro lido em grupo, vale a pena reservar tempo para conversar. Perguntar o que sentiram, que personagem gostaram mais, se houve alguma frase que ficou na memória. Estas perguntas simples ajudam a criança a regressar à história e a reorganizar emocionalmente a experiência da leitura.

A partir daí, pode surgir a criação de cartões literários escritos à mão. Cada criança escreve ou dita uma mensagem inspirada na história. O destinatário pode ser um amigo da turma, um familiar, alguém da escola ou até uma personagem do livro.

Com os mais pequenos, o adulto pode escrever a mensagem tal como a criança a fórmula, respeitando a sua linguagem e intenção. Com os mais crescidos, pode desafiar-se à inclusão de uma emoção concreta: escrever um cartão que fale de gratidão, de amizade, de saudade ou de carinho.

Esta atividade trabalha simultaneamente a escrita, a empatia e a capacidade de transformar sentimentos em palavras. Mais do que “escrever bem”, interessa escrever com sentido.

 

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Cartões literários: afetos em palavras próprias

Depois de um livro lido em grupo, vale a pena reservar tempo para conversar. Perguntar o que sentiram, que personagem gostaram mais, se houve alguma frase que ficou na memória. Estas perguntas simples ajudam a criança a regressar à história e a reorganizar emocionalmente a experiência da leitura.

A partir daí, pode surgir a criação de cartões literários escritos à mão. Cada criança escreve ou dita uma mensagem inspirada na história. O destinatário pode ser um amigo da turma, um familiar, alguém da escola ou até uma personagem do livro.

Com os mais pequenos, o adulto pode escrever a mensagem tal como a criança a fórmula, respeitando a sua linguagem e intenção. Com os mais crescidos, pode desafiar-se à inclusão de uma emoção concreta: escrever um cartão que fale de gratidão, de amizade, de saudade ou de carinho.

Esta atividade trabalha simultaneamente a escrita, a empatia e a capacidade de transformar sentimentos em palavras. Mais do que “escrever bem”, interessa escrever com sentido.

 

Marcadores de livros ilustrados: ler, criar e regressar ao texto

Os marcadores de livros são uma atividade simples, mas muito poderosa. Funciona como ponte entre a leitura, a expressão artística e a relação afetiva com o livro enquanto objeto, além de ser super divertida, claro!

Cada criança pode criar um marcador inspirado na história lida: uma personagem, um momento ou até um objeto importante. O marcador pode incluir uma palavra-chave ou uma pequena frase retirada do livro, algo que represente a emoção central da narrativa.

Estes marcadores podem ser oferecidos a alguém ou usados nos próprios livros, criando uma ligação afetiva entre o leitor e o texto. É também uma forma subtil de incentivar o regresso ao livro, a releitura e o cuidado com os objetos de leitura.

Aqui trabalha-se a atenção ao texto, a interpretação visual e a ideia de que os livros acompanham o leitor para além da leitura.

 

Declarações literárias: quando o livro fala por nós

Para crianças mais velhas, as declarações literárias são uma atividade particularmente rica. Parte-se de uma frase do livro que fale de amizade, cuidado, coragem ou afeto. Essa frase pode ser copiada, adaptada ou servir apenas de inspiração para criar uma nova.

O desafio pode ser simples, mas provocador: “E se esta personagem tivesse algo bonito para dizer a alguém?”. A partir daí, surgem textos cheios de significado.

As declarações podem ser escritas em tiras de papel, pequenos cartazes ou páginas ilustradas. Podem ser lidas em voz alta, expostas ou oferecidas. Esta atividade reforça a compreensão leitora e mostra que a literatura também serve para dizer o que sentimos, mesmo quando ainda não sabemos bem como.

 

Correio da sala ou da biblioteca: afetos em circulação

Para prolongar estas atividades no tempo, pode criar-se um correio da sala ou da biblioteca. Durante alguns dias, existe uma caixa onde as crianças colocam cartões, mensagens ou declarações literárias.

No final, as mensagens podem ser entregues aos destinatários ou lidas em conjunto, consoante o contexto. Este gesto simples reforça a ideia de comunidade, de cuidado mútuo e de continuidade emocional.

O correio transforma a leitura num acontecimento coletivo, que se estende para além do momento pontual da atividade.

 

O papel do mediador: presença, escuta e tempo

Em todas estas propostas, o essencial não são os materiais. O mais importante é o tempo para conversar, a escuta atenta e o respeito pelo ritmo de cada criança.

Enquanto mediadores, pais, educadores, professores, bibliotecários, não precisamos interpretar o livro pela criança. Precisamos estar disponíveis para escutar, para acolher perguntas inesperadas e para aceitar silêncios.

Os livros fazem grande parte do trabalho. Cabe-nos criar o espaço para que isso aconteça.

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Embora fevereiro seja um momento especialmente propício para falar de amizade e afetos, estes livros e atividades não pertencem a um único mês. São leituras e práticas para todo o ano, para diferentes contextos e idades.

Ao regressarem às mesmas histórias, as crianças descobrem novos sentidos, novas emoções e novas perguntas. É essa riqueza que faz da literatura infantil um instrumento tão poderoso de crescimento emocional.

Celebrar a amizade e os primeiros afetos através dos livros é, no fundo, apostar numa infância mais consciente, empática e segura. E isso faz-se página a página, conversa a conversa, leitura a leitura.

Cristiana Nunes

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