Como “fazer” um poema?

Rimar?

“- Professora, preciso de uma palavra que rime

com cordão, pode ser campeão?”

“- Claro que não! Não se faz um poema assim!”

Explicou-nos que campeão é aquele que escreve

um poema ao sabor do prazer e da emoção

E só no fim o vai rever e aperfeiçoar, até ele tilintar.

Tilintar?!

Sim, pode rimar, mas há versos brancos,

que de tão claros, nos deixam livres

para exprimir as ideias sem as cintar.

Cintar?!

Sim, às vezes, a rima é como os cintos apertados,

que não deixam as pessoas respirar.

Digam lá se não dava jeito este poema continuar

com a rima a terminar sempre em ar?

Mas não! Entendemos a lição: ficámos a saber

como se ouve e se respira um poema.

Teresa Guedes, Real...mente. Editorial Caminho, 2005, p. 33

Este poema de Teresa Guedes (1957-2007) oferece um caminho, uma via para aprenderes a tornar-se poeta, escrevendo poesia.

Nele, podemos identificar 3 passos para a escrita deste tipo de texto:

1 - Ao sabor do prazer e da emoção

Assim mesmo!

Robert Frost escreve que «a poesia acontece quando uma emoção encontrou o seu pensamento e o pensamento encontrou as palavras». A emoção, o que sentes, o que te comove, o que te magoa, também o que te alegra, é o ponto de partida para a poesia, é a matéria-prima do poema. Não tens de te preocupar, nesta fase, como o modo como escreves, o importante é escrever… naturalmente, como te recomenda John Keats, quando escreve:

«Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo».

Numa palavra: a primeira etapa, na “construção” de um poema é escrever… naturalmente, escrever como te apetecer, o que te nascer do coração e vier à cabeça.

2 - Rever e aperfeiçoar

No fim, depois de escreveres ao sabor do prazer e da emoção, é preciso “cuidar” do que escreveste.

Tens de analisar e ver se o que escreveste tem sentido e corresponde ao teu pensamento: ver se a «emoção encontrou o seu pensamento». Se o sentido do que escreveste “casa bem” com o teu coração, a emoção que experimentaste. Se sim, dás outro passo….

Analisas as palavras que escreveste, procurando compreender se são as melhores ou poderás encontras outras, sem esqueceres o que te recomenda Pedro A. Rosado: «Na poesia… a ordem das palavras é a ordem do teu coração».

Podes ainda tentar verificar se, como diz Samuel Coleridge, escreveste «as melhores palavras na melhor ordem» e não só palavras na sua melhor ordem, como num texto em prosa.


O poeta catalão Miquel Desclot (1952 - ) explica o que significa esta atenção às palavras através de uma comparação muito engraçada:

Os saltimbancos do circo só nos emocionam quando atuam na pista, executando os malabarismos extraordinários que só eles sabem fazer. Ao contrário, quando fazem o que toda a gente pode fazer, como estrelar um ovo ou comprar um jornal, os saltimbancos são tão pouco emocionantes como qualquer outra pessoa (como tu ou como eu).

Do mesmo modo, as palavras não nos emocionam quando se comportam de modo ordinário (como, por exemplo, para pedir uma borracha emprestada). Todavia, quando estas mesmas palavras adotam um comportamento extraordinário (quer dizer, quando as palavras fazem piruetas artísticas na sua pista), começam a emocionar de uma forma assombrosa. À pista onde as palavras atuam como saltimbancos surpreendentes chamamos poesia.

3 - Até ele [poema] tilintar

Verificado o sentido e a ordem das palavras, tens de preocupar-te agora com que o que escreve capte a atenção do leitor e isso faz-se… fazendo o poema tilintar, isto é, deixando que o poema chame a atenção dos ouvidos do leitor.

A maneira mais comum de fazer um poema tilintar é a rima, mas tens de ter em atenção que a rima não deve “atrapalhar” o trabalho que já fizeste com o sentido e a ordem das palavras. Além disso, verás que, com o tempo, que será mais fácil fazer rimar os versos. Não te esqueças que, como refere Teresa Guedes, no poema inicial, «pode rimar», pode, mas não é absolutamente necessário: «Sim, às vezes, a rima é como os cintos apertados, / que não deixam as pessoas respirar».

Outra forma de fazer o poema tilintar é colocar ritmo nas palavras ou nos versos, através do modo como fazes a pontuação, como distribuis os versos, como repetes algumas palavras (ou até algumas letras), entre outras! O ritmo do poema é tão importante que Edgar Allan Poe disse que «a poesia é a criação rítmica da beleza em palavras». Uma forma de perceberes se o poema que escreveste tem ou não ritmo é lê-lo em voz alta e ver se a respiração flui e coincide com o sentido que queres dar ao texto.

E pronto!

Se seguires cuidadosamente estes passos é possível que tenhas escrito um poema! Mas é provável que não te tenhas tornado um poeta! Tens de continuar a escrever, a namorar as palavras, a limpar outras, tem de te tornar, como sugere Álvaro Magalhães, um «limpa-palavras».

Para te tornares um poeta, talvez seja útil o conselho do poeta Sebastião da Gama (1924-1952, no seu Diário:

O Poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade… E diz assim: “É preciso saber olhar…” E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos… E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás…

E perde tempo (ganha tempo…) a namorar uma ovelha… E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso… E acha que tudo é importante… E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim… E reparou que os homens estavam tristes… E escreveu uns versos que começam desta maneira “O segredo é amar….

Viva a poesia!


JMR

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