Para que (não) serve a literatura?

No livro Para que serve a Literatura? (Deriva, 2010), Antoine Compagnon, professor Catedrático de Literatura Francesa Moderna e Contemporânea, apresenta um conjunto de grandes razões para responder à pergunta sobre a utilidade da literatura hoje.

Antes das respostas, assinale-se a pertinência de perguntas como estas:

· Que valores pode a literatura criar e transmitir no mundo atual?

· Que lugar dever ser o seu no espaço público?

· Será benéfica para a vida’ por que defender a sua presença na escola?

· Haverá ainda verdadeiramente coisas que só a literatura nos possa proporcionar?

· Será a literatura imprescindível ou será antes substituível?

· Qual será a relevância da literatura na vida?

· Qual será o seu poder, não só de prazer como também de conhecimento, não só de evasão como também de ação?

Constatando que o lugar da literatura na sociedade atual tem vindo a diminuir, na escola, na imprensa e até nos tempos livres, Conpagnon enuncia e fundamenta um conjunto de «utilidades» que tornam poderosa a literatura, a saber:


1 – A literatura contribui para uma vida boa, porque deleita, instrui, educa moralmente (é insubstituível para configurar a experiência humana).


2 – A literatura constitui um remédio, na medida em que liberta o indivíduo da autoridade e cura-o do obscurantismo. A literatura (e a leitura) contribuem para a liberdade e para a responsabilidade pessoal e coletiva. A literatura contesta a submissão ao poder. A harmonia do universo é restaurada pela literatura.


3 – A literatura corrige os defeitos da linguagem. A literatura fala para toda a gente, recorre à língua comum, mas faz desta uma língua própria – poética ou literária. Nesta medida, a literatura torna-nos mais inteligentes, ou inteligentes de outra forma.


4 – A literatura, como dizia Roland Barthes, não permite caminhar, mas permite respirar e, por norma, não se deixa instrumentalizar, não se dando bem com usos supletivos, sejam pedagógicos, ideológicos ou mesmo linguísticos.


5 – A literatura deve ser lida e estudada pelo facto de proporcionar um meio – alguns dirão mesmo o único – de preservar e de transmitir a experiência dos outros e de nos expor a experiência e valores que não os nossos.


6 - A literatura desconcerta, incomoda, confunde, desorienta mais do que os discursos filosófico, sociológico ou psicológico, porque apela às emoções e à empatia. A literatura liberta-nos dos nossos modos artificiais de pensar a vida – a nossa e a dos outros. Ela arruína a boa consciência e a má fé. Ela resista à estupidez não com na violência, mas antes de forma subtil e obstinada


7 – A literatura é uma forma de pensamento; ela pensa, mas não à maneira da ciência ou da filosofia, mas heuristicamente. A literatura ensina-nos a sentir melhor, e como os nossos sentidos não têm limites, nunca conclui, antes permanece aberta. A literatura é um exercício de pensamento; a leitura, uma experimentação dos possíveis.

Esta breve resenha de indispensáveis supérfluos, que assistem a literatura, não nos dispensa da leitura atenta e cuidada deste breve ensaio.


Boas leituras!



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